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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A influência do artista Georgio de Chirico na obra de Cartier-Bresson

É inquestionável a relevância que a obra de Henri Cartier-Bresson tem para o desenvolvimento da fotografia. O fotógrafo francês deixou um extenso legado que vem influenciando gerações de fotógrafos no mundo inteiro, sobretudo os amantes da Fotografia de Rua e do Fotojornalismo.
Para compreender a riqueza de sua obra, é necessário ir além de uma despretensiosa apreciação de suas imagens populares. É imprescindível que se conheça as influências artísticas que inspiraram seu olhar e sua prática fotográfica. Neste artigo, examinaremos, em específico, a influência do pintor Giorgio de Chirico na obra de Cartier-Bresson. 
Embora Bresson não tenha sobressaído na pintura, sua paixão pela 3ª arte foi fundamental para a formação de seu olhar fotográfico. Em sua juventude, ele frequentou, durante dois anos, a escola de pintura de André Lhote, com quem aprendeu técnicas e princípios sobre composição artística, em especial a geometria.
Cartier-Bresson e De Chirico foram contemporâneos, mas não há registros que atestem uma relação de convivência e trocas constantes entre eles. No entanto, conforme relatos publicados, Cartier-Bresson revelou ser um grande admirador da obra de Giorgio de Chirico: “os quadros dele me impressionavam”. 

De Chirico é considerado um dos precursores do Surrealismo. Com uma linguagem profunda e carregada de símbolos, o pintor buscou desvendar a realidade humana. Para ele, a vivência humana é indissociável dos espaços urbanos. Suas telas buscam suscitar atmosferas de mistério e reflexão, através da colocação de objetos em perspectivas divergentes e do uso de luz e sombra.


GIORGIO DE CHIRICO. Mistério e Melancolia de uma rua, 1913

Um traço característico de De Chirico é a representação de figuras humanas por meio de silhuetas, que por vezes são mostradas sem rosto ou como sombras projetadas. A presença de formas geométricas, a representação das ruas por grandes espaços vazios, em um jogo de luz e sombra, são elementos marcantes em sua obra.  
Ao recorrermos ao acervo de imagens de Cartier-Bresson, pode-se identificar a presença de elementos característicos da pintura de Giorgio de Chirico, como essa foto abaixo registrada durante a sua segunda viagem ao México. 



CARTIER-BRESSON. Oaxaca, México, 1963

Dotada de uma composição complexa, a imagem transmite um tom de mistério, de inquietação. Os dois personagens presentes na foto são reduzidos a silhuetas e olham para direções opostas. Com um sentido geométrico bastante apurado, nota-se uma linha diagonal que divide a foto, formando um interessante jogo de luz e sombra. A presença de uma coluna no lado direito é também um elemento comumente encontrado nas telas de De Chirico. 
Na foto abaixo, é possível também identificar elementos característicos de De Chirico. Os enormes espaços vazios e a presença de sombras transmite silêncio e solidão. Não é possível ver o rosto da criança, que é captada de muito longe e em forma de silhueta. Predomina também o ar de mistério. 


CARTIER-BRESSON. Salerno, Italia, 1933

Em síntese, o grande interesse de Cartier-Bresson pela pintura, especialmente pela obra de Giorgio De Chirico, enriqueceu o olhar do fotógrafo e sua prática fotográfica.



sábado, 14 de novembro de 2015

Greg Girard - Um ideal de persistência na fotografia urbana

Sempre comento em minhas aulas de Fotojornalismo e Street Photography que um fotógrafo em campo deve atuar como um caçador. Deve rastrear, camuflar-se, ficar à espreita, mantendo sua(s) caça(s) sob constante vigilância e, o mais importante, ter paciência! Grandes fotógrafos, com técnicas apuradíssimas, não seriam capazes de realizar um trabalho documental pelo simples fato de não possuírem essa característica. Paciência e persistência são os elementos chaves para esse tipo de fotografia. Inclusive,"snapshot" foi massivamente usado para o disparo de fotos instantâneas, nas antigas Polaroids. Na língua inglesa o termo surgiu inicialmente para definir o ato de um caçador, afirmando ainda mais a relação que a fotografia tem com a prática da caça. 

E se tem algo que molda definitivamente o trabalho de um fotógrafo documental é a perseverança, pois, quanto maior e mais estreito contato com o motivo fotografado, melhor vai ser o conhecimento e olhar do fotógrafo acerca do assunto em questão.

Greg Girard é um grande fotógrafo documental que respeitou simetricamente a essência do seu trabalho. Canadense, fotografou exaustivamente sua cidade natal, Vancouver. Porém, passou boa parte de sua carreira na Ásia, sendo ela sua grande musa inspiradora. Seu trabalho analisa as transformações sociais e físicas que ocorrem em toda a região, em especial os locais menos abastados.

























Ponte Granville, Vancouver, 1975




Shanghai, 2002

Suas fotografias nos causam um misto de saudosismo e melancolia. A síntese do seu trabalho está fundamentada nos anos de 1972 a 1994, que foi quando realizou seus principais projetos fotográficos; e também pelo fato de ainda trabalhar com câmeras analógicas, fato que conferia um visual mais orgânico e despretensioso às suas fotografias, características ímpares da imagética documental. 

























Prédios na Avenida Railway, Vancouver, 1975

Girard é um exímio detalhista em suas composições. Seus enquadramentos precisos refletem a alma dos locais e situações retratados, nos transportando com facilidade à cena, estimulando uma imersão raramente vista nos trabalhos de outros fotógrafos.
























Vancouver, 1981. Geometria e composição acertada são características marcantes em suas fotografias.

Um de seus principais projetos fotográficos foi a Cidade Murada de Kowloon, em Hong Kong. Kowloon era uma região altamente povoada e degradada, que foi demolida em 1993, sendo considerada a maior favela vertical do mundo.
























Vista de uma das fachadas de Kowloon Walled City a noite, 1987

Originalmente uma fortaleza militar chinesa, Kowloon era uma aglomeração orgânica, que cresceu sem planejamento, sem projeto, tendo praticamente todas as características de uma favela comum, porém verticalizada. Em meados da década de 1950 Kowloon se tornou um centro de prostituição, tráfico de drogas, cassinos; tudo controlado por máfias chinesas conhecidas da época. Os acessos eram monitorados e os apartamentos do interior do imenso bloco de concreto não haviam janelas, sendo que as moradias externas, da fachada, eram as mais valorizadas do local. Sua densidade era tanta que não haviam ruas ou avenidas para automóveis, apenas estreitos corredores de circulação.

Tudo o que acontecia em Kowloon gerava rebuliço em toda Hong Kong. Um assassinato na cidade era algo comum, mas um assassinato em Kowloon era "O" assassinato. Como na época Hong Kong pertencia à Inglaterra, sendo uma espécie de colônia britânica, a China responsabilizava os ingleses pelas mazelas de Kowloon. E, do contrário, a Inglaterra dizia que Kowloon era responsabilidade dos chineses, pois, apesar de sua autonomia em Hong Kong, os britânicos autorizavam as autoridades chinesas a utilizar os recursos econômicos de Hong Kong como quisessem.
























Um apartamento típico de Kowloon, 1989

Em consequência da ausência de vigilância sanitária, decorrente da inexistência gestão da região, Kowloon se tornou uma Meca dos açougues clandestinos. Grandes fábricas de carne processada de Hong Kong migraram para Kowloon afim de fugir da fiscalização

Apesar de ter se tornado relativamente pacífica no início da década de 1980, a baixa qualidade de vida já estava se tornando algo intolerável para os padrões da época na crescente China do final do século XX. A partir de então, em 1987  iniciou-se um acordo entre a Inglaterra e o governo de Hong Kong para demolir definitivamente Kowloon e transformar a área em um imenso parque-memorial. A demolição começou no início de 1992 e durou quase dois anos, sendo concluída no final de 1993.


























Ruas úmidas de Kowloon, 1989























O agitado comércio de Kowloon, 1987






















Um açougue clandestino, 1990

A fascinação de Greg Girard pelo arranjo urbano das metrópoles asiáticas fez com que ele passasse 5 anos de sua vida morando em Hong Kong, estudando, documentando e fotografando a imensa Kowloon e a rotina de seus habitantes. Foi o maior trabalho fotográfico já feito sobre a região; e graças às suas habilidades fotojornalísticas, podemos hoje conhecer o âmago desse instigante monumento.

























Situando-se ao lado do Aeroporto de Hong Kong, os habitantes de Kowloon entretiam-se com a intensa circulação de aeronaves. 1990

Atualmente Greg Girard se dedica às edições e publicações de livros e exposições sobre seus projetos. Ele é representado pela galeria Monte Clark do Canadá e também trabalha para publicações como a revista National Geographic. Acesse seu site para conhecer um pouco mais sobre o trabalho deste grande fotógrafo documental.

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