É inquestionável a relevância que a obra de Henri Cartier-Bresson tem para o desenvolvimento da fotografia. O fotógrafo francês deixou um extenso legado que vem influenciando gerações de fotógrafos no mundo inteiro, sobretudo os amantes da Fotografia de Rua e do Fotojornalismo.
Para compreender a riqueza de sua obra, é necessário ir além de uma despretensiosa apreciação de suas imagens populares. É imprescindível que se conheça as influências artísticas que inspiraram seu olhar e sua prática fotográfica. Neste artigo, examinaremos, em específico, a influência do pintor Giorgio de Chirico na obra de Cartier-Bresson.
Embora Bresson não tenha sobressaído na pintura, sua paixão pela 3ª arte foi fundamental para a formação de seu olhar fotográfico. Em sua juventude, ele frequentou, durante dois anos, a escola de pintura de André Lhote, com quem aprendeu técnicas e princípios sobre composição artística, em especial a geometria.
Cartier-Bresson e De Chirico foram contemporâneos, mas não há registros que atestem uma relação de convivência e trocas constantes entre eles. No entanto, conforme relatos publicados, Cartier-Bresson revelou ser um grande admirador da obra de Giorgio de Chirico: “os quadros dele me impressionavam”.
De Chirico é considerado um dos precursores do Surrealismo. Com uma linguagem profunda e carregada de símbolos, o pintor buscou desvendar a realidade humana. Para ele, a vivência humana é indissociável dos espaços urbanos. Suas telas buscam suscitar atmosferas de mistério e reflexão, através da colocação de objetos em perspectivas divergentes e do uso de luz e sombra.
GIORGIO DE CHIRICO. Mistério e Melancolia de uma rua, 1913
Um traço característico de De Chirico é a representação de figuras humanas por meio de silhuetas, que por vezes são mostradas sem rosto ou como sombras projetadas. A presença de formas geométricas, a representação das ruas por grandes espaços vazios, em um jogo de luz e sombra, são elementos marcantes em sua obra.
Ao recorrermos ao acervo de imagens de Cartier-Bresson, pode-se identificar a presença de elementos característicos da pintura de Giorgio de Chirico, como essa foto abaixo registrada durante a sua segunda viagem ao México.
CARTIER-BRESSON. Oaxaca, México, 1963
Dotada de uma composição complexa, a imagem transmite um tom de mistério, de inquietação. Os dois personagens presentes na foto são reduzidos a silhuetas e olham para direções opostas. Com um sentido geométrico bastante apurado, nota-se uma linha diagonal que divide a foto, formando um interessante jogo de luz e sombra. A presença de uma coluna no lado direito é também um elemento comumente encontrado nas telas de De Chirico.
Na foto abaixo, é possível também identificar elementos característicos de De Chirico. Os enormes espaços vazios e a presença de sombras transmite silêncio e solidão. Não é possível ver o rosto da criança, que é captada de muito longe e em forma de silhueta. Predomina também o ar de mistério.
CARTIER-BRESSON. Salerno, Italia, 1933
















