domingo, 13 de março de 2016

A importância do trabalho autoral

Antes de qualquer conceito ou explicação, deve ser feita a pergunta: “Porque você escolheu ser fotógrafo?” Se a resposta for única e exclusivamente: “porque será minha profissão” ou “para  ganhar  dinheiro”,  talvez  seja  a  hora  de  ler  este  artigo  com  uma  atenção especial.  Já  é clichê  dizer  que  toda  profissão  que  escolhemos  deve  ser  relacionada  a  algo  que  gostamos, mas  e  se  ela  parasse  de  lhe  render  dinheiro,  você  continuaria  a  praticá-la?  O  seu  trabalho profissional reflete seu humor, sua personalidade, sua história? Ele descreve quem  é você ou quem é seu cliente? E é ai que entra a grande diferença!



Rafael Benevides, uma imagem de seu trabalho comercial e uma imagem de seu projeto autoral

Toda a fotografia que você realiza é de sua autoria, então o que é um projeto autoral? Entende-se como algo desenvolvido para satisfazer um desejo pessoal. Uma forma de expressão artística, sua maneira de contar ao mundo alguma história. Ok, mas como faço isso?



Joel Robison, uma imagem de seu projeto autoral de fotografia fine art

Um  projeto  autoral  deve  ter  uma  identidade,  um  contexto  e  uma  linearidade.  Não é  certo considerar que as fotografias de flores bonitas, objetos aleatórios, estátuas e pontos turísticos que você já capturou ao longo da vida em suas viagens sejam seu projeto autoral, pelo simples fato de não ter recebido um tostão para clica-los, ou porque os fotografou porque quis, é muito mais elaborado que isso! 



Laura Zalenga – Série Concrete love

Imagine o seguinte: Você vai escrever um livro! Cada página escrita deve ter conexão com a página anterior, para que a história seja compreendida. E a página seguinte, deve ter algo das demais  páginas,  e  todas  juntas  criarão  um  contexto,  e estarão  conectadas  através  de  seu conteúdo. E  seu conteúdo deve ter alguma informação, deve ter alguma expressão, algo que quer passar adiante. Finalmente, alguém poderá pegar seu trabalho e entender toda sua criação.  A  fotografia  autoral  é  exatamente  o  mesmo!  Um  artista  (e  agora  abrirei  margem  para  os designers,  pintores,  escultores,  fotógrafos,  etc!)  deve  buscar  algo  além  do  retorno  financeiro. Nada o impede de atuar na  área comercial, recebendo roteiros de seu trabalho, instruções de seus clientes, recebendo dinheiro para fazer algo que lhe foi solicitado, mas deve se questionar no fim das contas: qual marca você quer deixar no mundo?


Rebeca Saray, uma imagem de seu trabalho comercial para fotografia Beauty e uma imagem de seu projeto autoral Colores

Então  para  que  eu  tenha  um  trabalho  autoral,  ele  tem  que  ser  feito  de  graça?  Nada  disso! Grandes  nomes  da  fotografia  propagaram  seus  trabalhos  autorais  pelo  mundo  muitas  vezes recebendo para faze-los! Outros, ainda, criaram seus projetos e pela repercussão começaram a vender cópias, exposições em galerias e até mesmo livros. 


Nirrimi Firebrace – campanha Billabong 2012

Na contratação para a campanha, a fotógrafa utilizou as mesmas técnicas e expressividade aplicada em suas fotografias autorais

Phil Borges por exemplo tem mais de uma série de trabalhos autorais, e não deixa  de  ter  clientes  empresariais  que  financiam  a  continuidade  de  seu  trabalho,  coleções permanentes em museus, prêmios internacionais e vende cópias de algumas de suas imagens em seu site.



Phil Borges

Brooke  Shaden,  por  sua  vez,  desenvolveu diversas  séries  de  temas diferentes,  capturando  autorretratos  onde  se  expressava  através  da  fotografia  e  Photoshop para mostrar suas histórias e personagens, e já foi exposta em dezenas de museus, revistas, palestras pelo mundo, além da venda de seu trabalho impresso, aulas e livros. 



Brooke Shaden

É perfeitamente possível conciliar os dois estilos de trabalho: um  que você desenvolve dentro das  expectativas  de  seu  cliente  e  de  seu  portfólio  de trabalho  e  outro  que  você  elabora totalmente  dentro  de  seu  próprio  desejo,  sua  própria  mente!  Todos  nós  temos  uma  história para contar ao mundo, histórias que podem revoltar, encantar e até mesmo ajudar aos outros. O  desenvolvimento  de  um  projeto  autoral  fortalece  no  artista  o  desejo  de  mostrar  ao  mundo quem ele é. E você? Qual marca ou história quer deixar no mundo? Já começou a escreve-la? 

www.escolametropole.com


domingo, 6 de março de 2016

Quanto vale uma fotografia?

Uma das maiores fontes de stress e preocupação para o fotógrafo iniciante (ou mesmo alguns já mais experientes) é determinar quanto deve cobrar por seus trabalhos fotográficos. É bem verdade que, assim como em qualquer mercado de livre concorrência, o que vai determinar quão longe um fotógrafo pode ir na hora de “esticar” o preço é como anda a procura por suas fotos, ou seja, a demanda. Quanto maior ela for, mais o fotógrafo deve conseguir cobrar.

Porém, há alguns critérios que devem ser minimamente considerados na hora de formar o seu preço.

Os critérios objetivos são os mais fáceis de se determinar e, por isso mesmo, muitos fotógrafos acabam por incluir somente eles no cálculo. Alguns exemplos são: depreciação de equipamentos, aluguel de locações, seguros, deslocamento, hospedagem, alimentação, horas de trabalho, custos de pós-produção etc. O fotógrafo que inclui somente esse tipo de critério no seu preço está deixando de fora itens essenciais e que, provavelmente, garantem muito mais a qualidade e a satisfação final do cliente.

Esses são os critérios subjetivos, entre os quais podemos citar a experiência/reputação do fotógrafo, seu portfólio, a dificuldade de produção das fotos, a qualidade do atendimento, sua presteza, simpatia etc. É claro que nenhum desses itens é passível de ser medido de maneira clara, por isso a dificuldade em estipular um preço baseado neles. Mas observe que são esses o fatores que agregam maior valor ao resultado final do trabalho, então deixa-los de fora é um erro muito grande e faz com que o fotógrafo desvalorize o próprio trabalho.


Casal no Mercado das Borboletas / Belo Horizonte - por Rommel Bicas

Não é difícil encontrar na internet planilhas prontas para que o fotógrafo possa estimar o valor a ser cobrado pelos seus serviços. Essas planilhas costumam ser uma mão na roda, pois trazem de maneira bem organizada todos os critérios objetivos que devem ser incluídos e algumas ainda dão uma ajuda também com relação aos critérios subjetivos. Por isso, não há mais desculpas para desvalorizar o seu trabalho cobrando um valor inferior.



 Splash / por Rommel Bicas

Por falar nisso, um dos efeitos mais nocivos de o profissional não saber quanto cobrar é ele reduzir (às vezes exageradamente) o preço de seus serviços para atrair clientes. Essa é uma atitude bastante criticada no meio fotográfico e, infelizmente, muito comum. Frequentemente escutamos reclamações de colegas que contam casos de trabalhos que perderam para concorrentes que cobravam um terço ou menos do valor.

Porém, há um outro mercado, onde os critérios objetivos quase não contam e os subjetivos vem a tona como o principal (quando não o único) agregador de valor a uma foto: estamos falando do mercado de fotos autorais, ou seja, sem fins comerciais. Pode parecer estranho que uma foto que não foi feita para fins comerciais tenha de fato um valor monetário, mas há de se entender que nesse caso estamos tratando de obras de arte e aí as leis do mercado tangem muito mais ao estilo, a linguagem, a técnica aplicada etc, como é comum nas outras áreas da arte.

No final de 2014, o posto de fotografia mais cara da história, que antes pertencia à obra Rhein II, do fotógrafo alemão Andreas Gursky, foi ocupado pela fotografia denominada Phantom, do australiano Peter Lik. A foto de Gursky, arrematada em leilão por US$ 4,3 milhões, cedeu lugar à de Lik, vendida por nada menos que US$ 6,5 milhões. Você pode estar se perguntando o que há nessas obras que as fazem valer tanto. Nós também. :)

























Rhein II / Andreas Gursky
Valor: US$ 4,3 milhões





















Phantom / Peter Lik
Valor: US$ 6,5 milhões

Mas é inegável que fatores como a preocupação estética, a utilização de linhas harmônicas, técnica fotográfica, cores bem equilibradas (ou apenas tons de cinza bem explorados, como no caso de Phantom) se somam para produzir uma obra que venha a ser reconhecida como extremamente valiosa. No caso da fotografia, outro fator importante é a captura de um momento sublime. Por ser uma obra normalmente produzida em uma fração de segundo, o registro de um momento marcante torna o resultado ainda mais interessante e monetariamente valioso. Estética, linhas, técnica, captura do momento... Consegue identificar as características acima na obra de Lik ou na de Gursky?

Além disso, a reputação do fotógrafo também conta muito. Obras de fotógrafos que já tenham obtido reconhecimento no passado tendem a ser mais bem avaliadas quando não há muita digressão do que já foi produzido por ele. Um exemplo disso é o caso de Gursky, que tem, entre as 10 fotografias mais caras da história, 4 obras suas. Há de se pensar quanto o nome dele pesou para que suas obras fossem extremamente bem avaliadas depois do primeiro sucesso.

Seja no mercado comercial ou no autoral, o valor de uma foto (ou um trabalho fotográfico) não é algo fácil de ser calculado, por isso, o conselho que deixamos é o de cuidar bem do seu equipamento, se aprimorar em termos de técnica e conhecimento e sempre, repito SEMPRE fotografar com amor ao seu motivo. Isso, sim, garante um valor inestimável ao seu trabalho e é facilmente percebido por todos.




segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O poder transformador do autorretrato

Antes do Facebook, os selfies eram chamados de autorretratos, e só eram exibidos vez ou outra, em situações eventuais, como em uma exposição de um renomado artista. Agora eles estão por toda parte: basta um acesso rápido em uma rede social no celular. Hoje todos os nossos amigos fazem selfie e o resultado disso é uma desvalorização do ato de se produzir um autorretrato. Se depender de você, de mim e de nossos inúmeros amigos, teremos um feed de notícias inteirinho de pessoas felizes e sexys apontando o que comeram naquele dia, o pôr-do-sol que vislumbrou, a nova manobra que executou em seus treinos ou como é bem-sucedido em seu trabalho.

O fato é que o selfie faz parte do mundo contemporâneo e ocupará as telinhas dos notebooks e celulares enquanto houverem as redes sociais. Mas engana-se quem pensa que a prática é revolucionária ou que possui o mesmo teor que o autorretrato do artista.

Tal atividade sempre esteve presente no universo das artes, em especial na pintura e na fotografia. Historiógrafos indicam Robert Cornelius (1809 - 1893) como pioneiro do autorretrato. Desde então, o movimento foi crescendo e foi sendo aderido por desconhecidos e celebridades em todos os cantos do mundo.


Primeiro autorretrato Robert Cornelius - 1839

Nadar (1820 - 1910) também merece ressalto neste artigo pois especula-se que foi o primeiro fotógrafo a extravasar e exprimir em suas fotografias traços significativos da sua personalidade, onde se esforça para se mostrar para a aristocracia parisiense como um fotógrafo bem-sucedido.



Autorretrato Felix Nadar - 1865

Já a fotógrafa Vivian Maier (1926 - 2009) exibiu em seus autorretratos sua biografia extraordinária de babá e fotógrafa, deixando fotos belíssimas das ruas de Chicago e Nova York. Em suas imagens, teoricamente singelas e despretensiosas, há um verdadeiro estudo sobre como usufruir da melhor forma possível todos os recursos disponíveis para a produção de registros com diferentes níveis de leitura.


Autorretrato Vivian Maier - 1954


Como podemos notar, o autorretrato sempre conduziu o artista em seu desejo de eternizar a própria existência. Na história da fotografia quase todos os fotógrafos já se registraram. Não só na história da fotografia, mas também na história da pintura. Rembrandt explorou massivamente a prática do autorretrato em suas pinturas.


Autorretrato de Rembrant  - 1660

O que muitos não percebem é que produzir autorretratos permite ao fotógrafo a prática de suas capacidades e habilidades, procurando a individualidade na linguagem pessoal, apresentando ao espectador o ser humano que há atrás da câmera fotográfica. Se no retrato comum há um afastamento entre fotógrafo e objeto, no autorretrato os dois se conectam e se transformam em um só, fato que permite ao fotógrafo o autoconhecimento.


Autorretrato Lígia Tôrres - A Arquitetura da Brasiliense - 2016

Ao longo da minha experiência como arte-educadora, presenciei casos de alunos que  transformaram as suas vidas após desenvolverem projetos fotográficos com autorretratos. Tendo como incômodo o períodos que se encontravam bloqueados ou com as emoções descontroladas, utilizaram o autorretrato como ferramenta para explorar e desbloquear tais sentimentos, externalizando essa carga emocional através da fotografia. 


Autorretrato Rebecca Francoff - 2015

Muitos aspirantes a fotógrafo utilizam o autorretrato como recurso para a autopromoção, abusando da sua figura carismática para seduzir o seu público cativo. Em muitos dos autorretratos que aprecio, me questiono: O que de fato faz essa fotografia ter inúmeras curtidas: a fotografia ou a popularidade do fotografado? 

Mas um autorretrato transformador não nasce ao acaso; ou através de uma receita de imagem pronta… ele passa longe da autopromoção. Um bom autorretrato é fruto de muito estudo e mergulho no próprio universo do artista. Antes de atingir a massa, o bom autorretrato deve metamorfosear o seu autor, o artista. Quando fixamos nosso olhar em nós mesmos, nosso coração bate mais forte. Quer sair de dentro de nós. Então, pegamos nossa câmera e pronto: congelamos aquele presente transformador. Aliás... a transformação é o grande poder da arte!



Autorretrato Lígia Tôrres - 2015
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A influência do artista Georgio de Chirico na obra de Cartier-Bresson

É inquestionável a relevância que a obra de Henri Cartier-Bresson tem para o desenvolvimento da fotografia. O fotógrafo francês deixou um extenso legado que vem influenciando gerações de fotógrafos no mundo inteiro, sobretudo os amantes da Fotografia de Rua e do Fotojornalismo.
Para compreender a riqueza de sua obra, é necessário ir além de uma despretensiosa apreciação de suas imagens populares. É imprescindível que se conheça as influências artísticas que inspiraram seu olhar e sua prática fotográfica. Neste artigo, examinaremos, em específico, a influência do pintor Giorgio de Chirico na obra de Cartier-Bresson. 
Embora Bresson não tenha sobressaído na pintura, sua paixão pela 3ª arte foi fundamental para a formação de seu olhar fotográfico. Em sua juventude, ele frequentou, durante dois anos, a escola de pintura de André Lhote, com quem aprendeu técnicas e princípios sobre composição artística, em especial a geometria.
Cartier-Bresson e De Chirico foram contemporâneos, mas não há registros que atestem uma relação de convivência e trocas constantes entre eles. No entanto, conforme relatos publicados, Cartier-Bresson revelou ser um grande admirador da obra de Giorgio de Chirico: “os quadros dele me impressionavam”. 

De Chirico é considerado um dos precursores do Surrealismo. Com uma linguagem profunda e carregada de símbolos, o pintor buscou desvendar a realidade humana. Para ele, a vivência humana é indissociável dos espaços urbanos. Suas telas buscam suscitar atmosferas de mistério e reflexão, através da colocação de objetos em perspectivas divergentes e do uso de luz e sombra.


GIORGIO DE CHIRICO. Mistério e Melancolia de uma rua, 1913

Um traço característico de De Chirico é a representação de figuras humanas por meio de silhuetas, que por vezes são mostradas sem rosto ou como sombras projetadas. A presença de formas geométricas, a representação das ruas por grandes espaços vazios, em um jogo de luz e sombra, são elementos marcantes em sua obra.  
Ao recorrermos ao acervo de imagens de Cartier-Bresson, pode-se identificar a presença de elementos característicos da pintura de Giorgio de Chirico, como essa foto abaixo registrada durante a sua segunda viagem ao México. 



CARTIER-BRESSON. Oaxaca, México, 1963

Dotada de uma composição complexa, a imagem transmite um tom de mistério, de inquietação. Os dois personagens presentes na foto são reduzidos a silhuetas e olham para direções opostas. Com um sentido geométrico bastante apurado, nota-se uma linha diagonal que divide a foto, formando um interessante jogo de luz e sombra. A presença de uma coluna no lado direito é também um elemento comumente encontrado nas telas de De Chirico. 
Na foto abaixo, é possível também identificar elementos característicos de De Chirico. Os enormes espaços vazios e a presença de sombras transmite silêncio e solidão. Não é possível ver o rosto da criança, que é captada de muito longe e em forma de silhueta. Predomina também o ar de mistério. 


CARTIER-BRESSON. Salerno, Italia, 1933

Em síntese, o grande interesse de Cartier-Bresson pela pintura, especialmente pela obra de Giorgio De Chirico, enriqueceu o olhar do fotógrafo e sua prática fotográfica.



quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Uma boa fotografia pode ser feita com qualquer equipamento!













Fotografia feita com um Windows Phone Lumia 930 - Itacaré - BA / por Sávio Muniz 
Afirmo com veemência que boa parte dos fotógrafos, principalmente os iniciantes, associam a boa fotografia a um equipamento robusto, tecnológico, caro, novo e principalmente famoso. Famoso? Sim. O pensamento é simples. Um cara, fez uma bela fotografia, com uma super câmera. Pronto. Resolvido. Compro o equipamento igual e vou fotografar. Sou um fotógrafo. Será? Calma! Precisamos conversar. Acha mesmo que se apenas o equipamento fizesse toda a diferença existiriam fotógrafos melhores que outros?  Se bastasse sacar a câmera e clicar, compraríamos um super equipamento e todos seríamos super fotógrafos.  Certo?  As coisas não são tão rápidas assim. Claro que todos podem vir a se tornar grandes fotógrafos, mas, para uma grande fotografia acontecer o fotógrafo deve dominar a técnica e seu olhar.  O mestre Cartier Bresson disse:
"Fotografar é prender a respiração quando todas as faculdades convergem para a realidade fugaz. É organizar rigorosamente as formas visuais percebidas para expressar o seu significado. É pôr numa mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração".
Vamos analisar essa frase? O que ele quis dizer? "Fotografar é prender a respiração quando todas as faculdades convergem para a realidade fugaz..." aqui ele fala de paciência, fala de imersão, concentração. Fala em momento decisivo. Tudo isso, essencial para um boa fotografia. Concorda? "... É organizar rigorosamente as formas visuais percebidas para expressar o seu significado..." Agora ele fala de composição. Rigorosamente! Fala da organização do seu motivo fotografado. Fala de textura, cor, luz, sombra, fala dos planos positivos e negativos, contrastes, fala de equilíbrio, fala de formas de perspectiva, escala e acredite, fala de muito mais. Tudo isso muitas vezes em um momento único e curtíssimo. "... É pôr numa mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração." É utilizar de  todo seu conhecimento, técnica, seu olhar e toda sua emoção. 





Fotografia feita com um Windows Phone Lumia 930 - Montes Claros - MG / por Sávio Muniz 
Definitivamente, fotografia não é somente um clique. E é exatamente isso que eu afirmo para você: uma boa fotografia pode ser feita com qualquer equipamento.  Claro que não estou aqui para dizer que os equipamentos de ponta não são importantes. Claro que são. Facilitam a vida do fotógrafo e devem ser utilizados. Devem sim! Não quero e nem vou estimular ninguém a pegar seu smartphone e sair para produzir um trabalho comercial, qualquer que seja. Os equipamentos chamados 'profissionais' tem papel fundamental por admitirem  situações  mais adversas, como por exemplo, locais mais escuros. Outro fator preponderante é a nitidez que é exigida em trabalhos comerciais, tais como casamentos, book, festas, etc., característica que muitas vezes as lentes de qualidade duvidosa dos celulares não entregam. Desfoque? Quase impossível com sensores que quando são grandes, tem menos de 1 centímetro.
Escrevo esse texto apenas para deixar claro que ninguém fotografa apenas com o equipamento. Fotografamos com toda nossa bagagem. Tanto técnica, quanto de vida. E quanto mais nos dedicarmos, quanto mais praticarmos e quanto mais vivermos, menos dependeremos de equipamentos e, parafraseando o mestre, mais colocaremos na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração. O resultado disso tudo são fotografias em sua essência!

Abaixo, algumas fotografias de minha autoria. Todas elas feitas com aparelhos celulares. Deixo uma pergunta para você responder logo quando acabar de vê-las. Uma boa fotografia pode ser feita com qualquer equipamento?
Fotografia feita com um Windows Phone Lumia 930 - Itacaré - BA / por Sávio Muniz 

Fotografia feita com um Windows Phone Lumia 930 - Montes Claros - MG / por Sávio Muniz 

Fotografia feita com um Windows Phone Lumia 930 - Itacaré - BA / por Sávio Muniz 



sábado, 14 de novembro de 2015

Greg Girard - Um ideal de persistência na fotografia urbana

Sempre comento em minhas aulas de Fotojornalismo e Street Photography que um fotógrafo em campo deve atuar como um caçador. Deve rastrear, camuflar-se, ficar à espreita, mantendo sua(s) caça(s) sob constante vigilância e, o mais importante, ter paciência! Grandes fotógrafos, com técnicas apuradíssimas, não seriam capazes de realizar um trabalho documental pelo simples fato de não possuírem essa característica. Paciência e persistência são os elementos chaves para esse tipo de fotografia. Inclusive,"snapshot" foi massivamente usado para o disparo de fotos instantâneas, nas antigas Polaroids. Na língua inglesa o termo surgiu inicialmente para definir o ato de um caçador, afirmando ainda mais a relação que a fotografia tem com a prática da caça. 

E se tem algo que molda definitivamente o trabalho de um fotógrafo documental é a perseverança, pois, quanto maior e mais estreito contato com o motivo fotografado, melhor vai ser o conhecimento e olhar do fotógrafo acerca do assunto em questão.

Greg Girard é um grande fotógrafo documental que respeitou simetricamente a essência do seu trabalho. Canadense, fotografou exaustivamente sua cidade natal, Vancouver. Porém, passou boa parte de sua carreira na Ásia, sendo ela sua grande musa inspiradora. Seu trabalho analisa as transformações sociais e físicas que ocorrem em toda a região, em especial os locais menos abastados.

























Ponte Granville, Vancouver, 1975




Shanghai, 2002

Suas fotografias nos causam um misto de saudosismo e melancolia. A síntese do seu trabalho está fundamentada nos anos de 1972 a 1994, que foi quando realizou seus principais projetos fotográficos; e também pelo fato de ainda trabalhar com câmeras analógicas, fato que conferia um visual mais orgânico e despretensioso às suas fotografias, características ímpares da imagética documental. 

























Prédios na Avenida Railway, Vancouver, 1975

Girard é um exímio detalhista em suas composições. Seus enquadramentos precisos refletem a alma dos locais e situações retratados, nos transportando com facilidade à cena, estimulando uma imersão raramente vista nos trabalhos de outros fotógrafos.
























Vancouver, 1981. Geometria e composição acertada são características marcantes em suas fotografias.

Um de seus principais projetos fotográficos foi a Cidade Murada de Kowloon, em Hong Kong. Kowloon era uma região altamente povoada e degradada, que foi demolida em 1993, sendo considerada a maior favela vertical do mundo.
























Vista de uma das fachadas de Kowloon Walled City a noite, 1987

Originalmente uma fortaleza militar chinesa, Kowloon era uma aglomeração orgânica, que cresceu sem planejamento, sem projeto, tendo praticamente todas as características de uma favela comum, porém verticalizada. Em meados da década de 1950 Kowloon se tornou um centro de prostituição, tráfico de drogas, cassinos; tudo controlado por máfias chinesas conhecidas da época. Os acessos eram monitorados e os apartamentos do interior do imenso bloco de concreto não haviam janelas, sendo que as moradias externas, da fachada, eram as mais valorizadas do local. Sua densidade era tanta que não haviam ruas ou avenidas para automóveis, apenas estreitos corredores de circulação.

Tudo o que acontecia em Kowloon gerava rebuliço em toda Hong Kong. Um assassinato na cidade era algo comum, mas um assassinato em Kowloon era "O" assassinato. Como na época Hong Kong pertencia à Inglaterra, sendo uma espécie de colônia britânica, a China responsabilizava os ingleses pelas mazelas de Kowloon. E, do contrário, a Inglaterra dizia que Kowloon era responsabilidade dos chineses, pois, apesar de sua autonomia em Hong Kong, os britânicos autorizavam as autoridades chinesas a utilizar os recursos econômicos de Hong Kong como quisessem.
























Um apartamento típico de Kowloon, 1989

Em consequência da ausência de vigilância sanitária, decorrente da inexistência gestão da região, Kowloon se tornou uma Meca dos açougues clandestinos. Grandes fábricas de carne processada de Hong Kong migraram para Kowloon afim de fugir da fiscalização

Apesar de ter se tornado relativamente pacífica no início da década de 1980, a baixa qualidade de vida já estava se tornando algo intolerável para os padrões da época na crescente China do final do século XX. A partir de então, em 1987  iniciou-se um acordo entre a Inglaterra e o governo de Hong Kong para demolir definitivamente Kowloon e transformar a área em um imenso parque-memorial. A demolição começou no início de 1992 e durou quase dois anos, sendo concluída no final de 1993.


























Ruas úmidas de Kowloon, 1989























O agitado comércio de Kowloon, 1987






















Um açougue clandestino, 1990

A fascinação de Greg Girard pelo arranjo urbano das metrópoles asiáticas fez com que ele passasse 5 anos de sua vida morando em Hong Kong, estudando, documentando e fotografando a imensa Kowloon e a rotina de seus habitantes. Foi o maior trabalho fotográfico já feito sobre a região; e graças às suas habilidades fotojornalísticas, podemos hoje conhecer o âmago desse instigante monumento.

























Situando-se ao lado do Aeroporto de Hong Kong, os habitantes de Kowloon entretiam-se com a intensa circulação de aeronaves. 1990

Atualmente Greg Girard se dedica às edições e publicações de livros e exposições sobre seus projetos. Ele é representado pela galeria Monte Clark do Canadá e também trabalha para publicações como a revista National Geographic. Acesse seu site para conhecer um pouco mais sobre o trabalho deste grande fotógrafo documental.

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